terça-feira, 3 novembro , 2026

A lua que coube nas mãozinhas de Annie 

 

Minha sobrinha-neta fez dois aninhos neste final de semana. Tive a felicidade de participar da organização da festa e, enquanto observava Marina e Duda enchendo os balões, Annie corria de um lado para o outro, recolhendo aqueles que insistiam em voar para longe. Participou de todos os processos, achando graça e curtindo cada detalhe da festa do Zoboomafoo. 

Esse era um desenho que meus filhos assistiram pouquíssimas vezes, pois já estavam entrando na adolescência. Mas minha afilhada era apaixonada pelo personagem e, guardando suas próprias lembranças, resolveu apresentá-lo à nossa princesa, que também caiu de amores pelo simpático lêmure. De vestido customizado, com um rabinho igual ao do personagem, Annie balançava a roupa e se divertia com cada movimento.  

Era bonito vê-la tão envolvida naquele universo que, para ela, parecia ter sido criado especialmente para aquele dia. 

Depois de tanta alegria, ainda tínhamos a tarefa de desmontar tudo e entregar o salão para o próximo aniversariante. Foi quando me dei conta de que aquela movimentação toda me fazia muito feliz. Talvez porque, enquanto ajudava a construir a festa de Annie, voltava no tempo e reencontrava um pouco das festas dos meus filhos. 

As festas deles sempre foram feitas com poucos recursos, mas com muito amor, dedicação e ajuda de toda a família. Não havia tantos serviços de decoração, mesas prontas ou possibilidades de encomendar tudo. Havia disposição para fazer. O bolo e os doces saíam da nossa cozinha. Em algumas festas, os salgadinhos eram fritos pela mamãe, que fazia questão de servir tudo quentinho. As primeiras decorações eram de cartolina, recortadas, coladas e montadas com o cuidado de quem sabia que cada detalhe faria os olhos dos pequenos brilharem. 

Com o passar do tempo, as condições foram melhorando. Vieram as peças de isopor alugadas (com glíter eram bem mais caras), os painéis de pano e, mais adiante, a inesquecível festa de Halloween, para a qual trabalhamos durante quase um ano, preparando cada detalhe para o grande dia e a grande festa a fantasia dos quinze anos de minha filha. 

Hoje percebo que as crianças não esperavam apenas pelo aniversário. Elas viviam a festa muito antes de ela acontecer. Acompanhavam as ideias, observavam os preparativos, davam palpites, contavam os dias. Durante a comemoração, estavam inteiramente entregues àquele mundo que havíamos construído para elas. E, depois, ainda tinham histórias para contar, lembranças para reviver e pequenos detalhes que permaneciam na conversa por muitos dias. 

Não fazia festas infantis havia pelo menos vinte anos. Por isso, senti uma alegria imensa ao reencontrar aquele movimento de família em torno de uma criança.  

Era como se estivéssemos todos trabalhando na construção de uma memória. Memórias carregadas de afeto.    

                                                                                                                                        A cada ajuda, um abraço da mãe; a cada sorriso da pequena, um beijo da avó. E assim passamos o sábado, comemorando não apenas seus dois anos, mas a felicidade de estarmos juntos. 

A comemoração ainda teve continuidade. No dia 2 de novembro, data oficial do aniversário, fomos tomar sorvete. Era o primeiro dela! A mãe liberou e Annie fez jus ao presente. Lambia delicadamente o sorvete na casquinha e se divertia com cada gota que escorria pelo rosto e pelas mãos. Parecia descobrir que algumas alegrias também podem ser saboreadas bem devagar. Fotografamos, filmamos, vibramos! 

O aniversário se prolongou para nos dar a oportunidade de cantar e celebrar muitas vezes. E, em cada comemoração, Annie soltava uma pérola: “Tô tão feliz!”, “Amo de ti!”, “Tudo lindo!”. Pequenas frases que, ditas por ela, ganhavam um tamanho enorme. 

Até que, enquanto caminhávamos de volta para casa, uma garça sobrevoou a lagoa próxima de nós e soltou um som gutural. O chamado da ave despertou a atenção da pequena. Annie parou, olhou para cima e pediu que todos escutassem. Ficamos ali, em silêncio, olhando para o céu. De repente, ela anunciou que o passarinho havia pegado a lua e que agora ela estava em suas mãozinhas, sob seus cuidados. 

Ficamos encantados com a lua que cabia naquelas mãos tão pequenas.  

Cada um de nós que era convidado a vê-la encontrava alguma beleza naquela imagem. E Annie sorria, satisfeita por compartilhar sua descoberta. Até que correu para mostrar a lua ao primo, caiu e começou a chorar, achando que a havia perdido. 

Maísa, sua amiguinha, correu depressa e, logo depois do tombo, entregou-lhe a lua que havia recolhido do chão. Não sei qual das duas ficou mais feliz: Annie, por recuperar sua lua, ou Maísa, por ter conseguido devolvê-la. 

As crianças têm um poder imenso de criar, imaginar e transformar o mundo ao redor. E que felicidade estar ao lado de adultos que, por alguns instantes, conseguem enxergar a lua em diferentes formatos, cores e vozes. Sim, nossa lua conversou com Annie. Imagino que tenha dito: “Fique tranquila, pequena. Eu não fui embora. Estava apenas esperando que você me mostrasse o caminho de volta para o céu”. 

Voltei para casa com o coração cheio. E continuo procurando a lua. Até agora, ela não apareceu. Talvez tenha gostado tanto das mãozinhas de Annie que tenha resolvido ficar por lá mais um pouquinho. 

Nos vemos nas próximas linhas! 

 

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